A gota é uma doença caracterizada pela deposição de cristais de urato monossódico nas articulações, causando artrite. Os ataques são autolimitados, mas podem tornar-se mais frequentes e intensos se não tratados. Cerca de 15% dos pacientes desenvolvem formas graves, com nódulos subcutâneos, artrite crônica e deformidades articulares. Hiperuricemia (ácido úrico >6,8 mg/dL) é necessária, mas não suficiente para o diagnóstico, sendo influenciada por fatores genéticos (60%).
Avaliação Clínica: Os flares geralmente são monoarticulares, acometendo o pé (articulação metatarsofalangeana) ou tornozelo, com dor abrupta e edema local. Diagnósticos diferenciais incluem pseudogota e artrite séptica. A confirmação é feita pela análise do líquido articular.
Sinais sugestivos de artrite gotosa:
* Envolvimento monoarticular.
* Início agudo com dor intensa em 24h.
* Eritema na articulação e intolerância à pressão.
* Histórico de episódios semelhantes.
* Nódulos subcutâneos ou tofos.
Níveis normais de ácido úrico durante crises não descartam gota, mas valores persistentemente normais sugerem outro diagnóstico.
##### 1-Tratamento na Fase Aguda
O tratamento precoce dos flares reduz dor e acelera a recuperação. Deve-se individualizar as opções com base nas comorbidades:
Colchicina: Primeira escolha.
* Crise: 1,0 mg VO, seguido por 0,5 mg a cada 12h por 7-10 dias.
* Profilaxia: 0,5 mg 1-2 vezes ao dia.
* Contraindicações: DRC grave (TFGe <20-30 mL/min), cirrose hepática, uso de medicamentos que interferem no citocromo P450 (ex.: claritromicina, azatioprina).
Prednisona (aliada no tratamento do paciente com DRC:
* Crise: 0,5 mg/kg/dia, seguido de desmame em 7-10 dias.
* Contraindicações: Diabetes descompensado, infecções.
AINEs (evitar no pacietne com DRC):
* Crise: Diclofenaco 50 mg 2x/dia por 7-10 dias.
* Profilaxia: Naproxeno 250 mg 2x/dia.
* Contraindicações: DRC, HAS, úlcera péptica, anticoagulantes.
Observação: Regimes alternativos incluem inibidores da IL-1 (anakinra) e corticotropina. Em casos graves, combinações de terapias podem ser necessárias.
##### 2-Redução nos níveis de Ácido úrico
A abordagem guiada por metas (ácido úrico <6 mg/dL) reduz significativamente os flares. Indicações incluem:
* Crises recorrentes (≥2/ano).
* Presença de tofos.
* Evidência de erosões articulares.
Terapia Medicamentosa:
Alopurinol (primeira escolha):
* Iniciar com 100 mg/dia, progressão até 800 mg/dia para atingir a meta.
* Risco de síndrome de hipersensibilidade (principalmente em HLA-B*5801).
Alternativas:
* Febuxostat (40-80 mg/dia).
* Benzbromarona (50-200 mg/dia).
* Pegloticase (8 mg IV a cada 15 dias).
Dica importante: A profilaxia deve ser mantida com colchicina até atingir a meta e o paciente permanecer sem crises por pelo menos um mês. Mudanças no estilo de vida (dieta e atividade física) complementam o tratamento.
Medicamentos como diuréticos tiazídicos, betabloqueadores e IECA aumentam os níveis de ácido úrico, enquanto losartana, fenofibrato e inibidores de SGLT2 podem reduzi-los. A adesão à terapia deve ser reforçada, visto que mais de 50% dos pacientes abandonam o tratamento em um ano.
Bibliografia:
Artigo de revisão “Gout”, publicado no New England Journal of Medicine ([link](https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMcp2203385))