Você já se deparou com aquele paciente em diálise que perde peso progressivamente, mesmo com um suporte nutricional adequado? A caquexia na DRC é um desafio frequente na prática nefrológica, e neste artigo revisamos as abordagens mais atuais baseadas na revisão de Rahbar Saadat et al., BMC Nephrology ([link](https://bmcnephrol.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12882-025-04057-8)).
##### Caso Clínico
Paciente masculino, 62 anos, em diálise há 5 anos por nefropatia diabética, com histórico de doença cardiovascular e anemia resistente à eritropoetina. Ele é trazido à consulta pela esposa, que relata perda de peso progressiva nos últimos 6 meses (7% do peso corporal), associada a fraqueza intensa, redução da força muscular, anorexia e episódios de hipotensão intradialítica. O paciente também refere fadiga severa e redução do interesse por atividades diárias.
Exame Físico
* Peso: 57 kg (redução de 4 kg nos últimos 3 meses)
* IMC: 19,5 kg/m² (pré-diálise)
* Pressão arterial: 105/65 mmHg
* Força de preensão palmar: Reduzida
* Edema periférico leve
Exames Laboratoriais

A bioimpedância revela redução significativa de massa magra, especialmente em membros inferiores.
Diagnóstico
A partir dos achados clínicos e laboratoriais, o paciente preenche critérios de caquexia associada à DRC:
* Perda de peso ≥ 5% em 6 meses
* Baixa albumina sérica (<3,2 g/dL)
* Marcadores inflamatórios elevados (PCR)
* Redução de massa muscular (evidenciada por imagem e circunferência do braço)
* Fraqueza e fadiga intensas
Além disso, excluímos causas secundárias de perda de peso:
* Neoplasias: Exames de imagem e perfil tumoral sem alterações.
* Hipertireoidismo: TSH e T4 livres normais.
* Insuficiência adrenal: Cortisol matinal dentro do esperado.
Esse paciente tem diagnóstico de desnutrição? Como diagnosticar e tratar?
##### Introdução
A caquexia é uma síndrome metabólica complexa associada a doenças crônicas, incluindo a DRC. Caracteriza-se por perda de massa muscular (com ou sem perda de gordura), inflamação sistêmica e desequilíbrio energético. A prevalência em pacientes com DRC varia de 30% a 60%, impactando negativamente na qualidade de vida e aumentando a mortalidade em até 20% ao ano.
Critérios Diagnósticos e Exclusão de Outras Causas
A diferenciação entre caquexia e outras condições, como desnutrição e síndrome de desgaste proteico-energético (PEW), é essencial para o manejo adequado. A Society on Sarcopenia, Cachexia and Wasting Disorders (SCWD) propõe o seguinte critério diagnóstico:
* Perda de peso involuntária ≥ 5% em 12 meses ou IMC < 20 kg/m².
* Redução da massa muscular, avaliada por circunferência muscular do braço ou exames de imagem.
* Marcadores inflamatórios elevados: PCR > 5 mg/L e IL-6 > 4,0 pg/mL.
* Baixa albumina sérica (< 32 g/L) e anemia (Hb < 12 g/dL).
* Fadiga e anorexia persistente.
Exclusão de Outras Causas é FUNDAMENTAL!
Além da DRC, a caquexia pode ser secundária a outras doenças. As principais condições a serem excluídas incluem:
* Neoplasias: Excluir malignidades subjacentes por exames laboratoriais e de imagem.
* Doenças inflamatórias sistêmicas (ex: artrite reumatoide, lúpus) que podem levar à perda de massa muscular.
* Doenças endócrinas: Hipertireoidismo e insuficiência adrenal podem causar perda de peso e desgaste muscular.
* Desnutrição isolada: Diferenciar de caquexia pela ausência de inflamação e pela resposta positiva à suplementação nutricional.
Manejo Prático
O tratamento da caquexia na DRC é multidisciplinar e envolve:
1. Abordagem Nutricional
* Ingestão proteica adequada: Recomenda-se 0,8-1,0 g/kg/dia em DRC estágios 3-4 e 1,2-1,5 g/kg/dia em diálise.
* Aporte calórico: Deve ser mantido entre 25-35 kcal/kg/dia.
* Suplementação de aminoácidos essenciais, especialmente cetoácidos em pacientes com restrição proteica.
* Correção de acidose metabólica, pois a acidemia contribui para o catabolismo muscular.
2. Terapias Farmacológicas
O tratamento farmacológico é complementar e inclui:
* Estimulantes do apetite: Megestrol e ciproeptadina têm mostrado benefícios.
* Grelina e agonistas do receptor de grelina: Estimulam apetite e síntese proteica.
* Terapias anti-inflamatórias: Estatinas e vitamina E podem reduzir a inflamação sistêmica.
* Moduladores hormonais: Testosterona pode ser útil em pacientes hipogonádicos.
* Antagonistas da via da leptina/melanocortina: Novos estudos mostram benefício com antagonistas do MC4-R mas ainda é pouco disponível
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3. Exercício Físico
* O exercício aeróbico e resistido melhora a massa muscular e reduz o impacto da caquexia.
* Treinamento de resistência progressivo melhora força e funcionalidade.
Tabela de Medicações Disponíveis no Brasil
A tabela a seguir apresenta as opções terapêuticas utilizadas no manejo da caquexia na DRC, incluindo disponibilidade e custos aproximados.

Conclusão
A caquexia na DRC é uma condição multifatorial que requer uma abordagem combinada de nutrição, tratamento farmacológico e atividade física. A identificação precoce e o manejo adequado são fundamentais para reduzir a morbimortalidade desses pacientes.
Como foi a evolução do nosso paciente?
Manejo Terapêutico
1. Otimização Nutricional
* Aporte proteico: Aumentado para 1,2-1,5 g/kg/dia (dado o estado hipercatabólico).
* Suplementação calórica: Objetivo de 30-35 kcal/kg/dia (uso de shakes hipercalóricos).
* Suplementação de cetoácidos (importante para modular catabolismo sem sobrecarga nitrogenada).
* Correção da acidose metabólica: Uso de bicarbonato de sódio (1-2 mEq/kg/dia).
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2. Terapia Farmacológica

Além disso, foi iniciado omega-3 (2 g/dia) como terapia adjuvante para modulação inflamatória.
3. Exercício Físico Supervisionado
* Treinamento resistido (3x semanais)
* Treinamento aeróbico leve (caminhada monitorada)
* Estimulação elétrica muscular para pacientes com imobilidade significativa
Evolução Clínica
Após 3 meses de intervenção, o paciente apresentou:
✅ Ganho de peso de 2,5 kg
✅ Melhora na força muscular (aferida por dinamômetro)
✅ Redução da fadiga
✅ Melhora na resposta à eritropoetina
Os marcadores inflamatórios reduziram (PCR: 5,0 mg/L), evidenciando um impacto positivo das intervenções.
Conclusão
A caquexia na DRC é um quadro desafiador, com alta morbimortalidade, exigindo abordagem multidisciplinar. O reconhecimento precoce e o manejo nutricional, farmacológico e físico são fundamentais para melhorar a qualidade de vida e os desfechos clínicos.
Este caso clínico reforça a necessidade de:
✔ Diagnóstico baseado em critérios clínicos, laboratoriais e de imagem
✔ Exclusão de causas secundárias de perda ponderal
✔ Tratamento multimodal (nutrição, exercícios, terapia farmacológica)
✔ Monitoramento contínuo para avaliar resposta e ajustar a abordagem terapêutica.
E ai? Sabia dessas drogas? Já aplicou essas medidas na prática?