Caso clínico
Paciente do sexo feminino, 36 anos, sem comorbidades conhecidas, sem uso de medicações contínuas e sem história prévia de litíase urinária, procurou a emergência com quadro de dor súbita e intensa em flanco direito, irradiando para região inguinal, associada a náuseas e sudorese. Relatava início do quadro há 4 horas, sem alívio com analgésicos comuns. Ao exame físico, apresentava dor à palpação profunda em flanco direito, sem sinais peritoneais. Exame de urina com hematúria microscópica e leucocitúria discreta.
Realizou ultrassonografia abdominal à beira-leito, que evidenciou dilatação leve da pelve renal direita, sem identificação clara do cálculo. Foi então solicitada tomografia computadorizada de abdome sem contraste (protocolo de baixa dose), que revelou cálculo de 6 mm em ureter distal direito, sem sinais de complicação.
Iniciou-se cetoprofeno EV com alívio significativo da dor. Optou-se pela prescrição de tansulosina 0,4 mg/dia por 10 dias e orientação hídrica. A paciente eliminou o cálculo espontaneamente após 5 dias.
Na avaliação ambulatorial de seguimento, foram realizadas duas coletas de urina de 24h, em dias diferentes, sob dieta habitual. O volume urinário estava adequado (>2,5 L/dia), com excreção normal de cálcio, oxalato e ácido úrico, mas citrato urinário persistentemente <250 mg/dia, confirmando hipocitratúria como alteração isolada.
Iniciou-se então citrato de potássio, na dose de 0,5 mEq/kg/dia, dividida em três tomadas, com meta de alcançar citratúria >320 mg/dia. Foi mantida orientação para ingestão hídrica visando diurese >2,5 L/dia e redução do consumo de sal. Planejada nova coleta de urina de 24h após 3 meses.
Esse caso é bem comum na prática... Mas quais são as medidas que realmente mudam a história natural dessa condição tão frequente em nossa população (10-15% da população adulta)?
A nova Diretriz Brasileira de Nefrolitíase 2025 ([link](https://www.bjnephrology.org/en/diretrizes-de-litiase-renal/)), elaborada pelo Comitê de Nefrolitíase da Sociedade Brasileira de Nefrologia, marca um avanço importante ao fornecer orientações práticas baseadas em evidência robusta. Parabéns a todos os autores! J Abaixo, destacamos apenas as 6 recomendações com grau A para vocês saberem o que é mais importante!
1. Diagnóstico por imagem
* O USG e radiografia simples podem ser exames iniciais.
* A TC com baixa dose é o exame de escolha para diagnóstico e avaliação de repercussão obstrutiva.
2. Controle da dor
* AINH são mais eficazes que opioides. Devem ser a primeira escolha.
3. Terapia expulsiva médica (TEM)
* Recomendada para cálculos ureterais distais de 5–10 mm, após decisão compartilhada.
4. Investigação metabólica
* Duas coletas de urina de 24h, sob dieta habitual, para pacientes com litíase recorrente, rim único ou alto risco.
* Repetir após 3–6 meses de tratamento.
5. Medidas dietéticas e de estilo de vida
* ↑ Ingestão de líquidos: ≥30 mL/kg/dia + 400 mL para perdas insensíveis → diurese alvo de 2,5–3,0 L/dia.
* Dieta DASH ou Mediterrânea.
* Cálcio dietético: 1000–1200 mg/dia.
* Proteína: 0,8–1,0 g/kg de peso ideal/dia.
* Sal (NaCl): <6 g/dia.
* ↑ Frutas e vegetais.
6. Litíase sem distúrbio metabólico identificado
* Manter hidratação adequada e recomendações dietéticas preventivas.
Gostaram?
Agora segue a tabela presente no artigo para lembrar os valores de referência e os níveis de ação!
Tabela: Parâmetros laboratoriais urinários em adultos (urina 24h)

E você? Já estava implementando todas essas? Comenta aqui