A crescente prevalência da obesidade e sua associação com a progressão da Doença Renal Crônica (DRC) reforçam a necessidade de estratégias terapêuticas integradas pelo Nefrologista. Este resumo aborda o uso da semaglutida, enfatizando a titulação prática e o manejo dos efeitos colaterais, com foco na segurança e eficácia para pacientes nefrológicos.
##### **Mecanismo de Ação e Evidências Clínicas**
A semaglutida é um agonista do receptor do GLP-1 que atua reduzindo a ingestão calórica e promovendo a perda de peso, além de exercer efeitos protetores sobre a função renal. O estudo FLOW publicado no NEJM, demonstrou que seu uso em pacientes com diabetes tipo 2 resulta em redução da albuminúria, desaceleração da progressão da DRC e perda de peso, sugerindo benefícios que podem ser extrapolados para pacientes obesos com comprometimento renal.
Vamos dar algumas dicas para prescrição deste medicamento:
##### **Progressão de Dose e Estratégia de Titulação**
Para otimizar os resultados e minimizar os efeitos adversos, uma titulação gradual é essencial. Uma proposta prática inclui:
* Início: Iniciar com 0,25 mg administrados semanalmente durante as primeiras 4 semanas, permitindo a adaptação do paciente e reduzindo o risco de eventos adversos, principalmente gastrointestinais.
* Primeiro Ajuste: Aumentar para 0,5 mg semanais após o período inicial, mantendo essa dose por, pelo menos, mais 4 semanas para avaliação da tolerabilidade e resposta clínica.
* Escalada Progressiva: Em pacientes que demonstram boa tolerância, proceder com aumentos graduais para 1,0 mg, depois 1,7 mg e, finalmente, atingir 2,4 mg semanais – a dose considerada ideal para maximizar os efeitos na perda de peso.
* Monitoramento Contínuo: Realizar acompanhamento rigoroso dos parâmetros clínicos, renais e metabólicos durante todo o processo de titulação para ajustes individualizados.
Se o paciente já estiver fazendo uso do Ozempic (sem conflito de interesse), podemos fazer a transição para o Wegovy (sem conflito de interesse) conforme a tabela abaixo.

##### **Efeitos Colaterais e Manejo**
Os efeitos adversos mais comuns relacionados à semaglutida são de natureza gastrointestinal. Entre eles, destacam-se:
* Náuseas e Vômitos: Geralmente ocorrem nas fases iniciais do tratamento. A titulação lenta, iniciando com doses baixas, ajuda a minimizar esses sintomas. Orientações dietéticas, como a ingestão de refeições menores e frequentes, podem também aliviar o desconforto. Uso de procinéticos pode auxiliar se sintomas mais intensos.
* Diarreia ou Constipação: Alterações no trânsito intestinal podem ser observadas. Nestes casos, a adequação do consumo de fibras e uma hidratação adequada podem contribuir para o manejo desses sintomas.
* Dor Abdominal: Em alguns pacientes, pode haver desconforto abdominal. A monitorização contínua permite ajustar a dose ou, se necessário, utilizar terapêutica sintomática para o alívio da dor.
* Reações no Local da Injeção: Embora menos frequentes, podem ocorrer reações leves; a orientação ao paciente sobre a técnica correta de aplicação é fundamental para evitar complicações locais.
Em pacientes com DRC, é crucial monitorar a função renal durante a introdução e a escalada da semaglutida, já que o comprometimento renal pode alterar a tolerância e a resposta ao medicamento. A individualização da titulação, com ajustes baseados na resposta clínica e na ocorrência de efeitos adversos, assegura que os benefícios sejam maximizados e os riscos, minimizados.
Lembrar da situações em que devemos ter cautela com a prescrição:
* Histórico de Câncer de Tireoide e MEN 2: Pacientes com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou com síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 não devem utilizar o fármaco, devido ao risco potencial de estimular o crescimento de células tireoidianas.
* Distúrbios Gastrointestinais: A semaglutida pode agravar quadros de gastroparesia ou outras disfunções do trato gastrointestinal. Assim, em pacientes com histórico de problemas gastrointestinais significativos ou episódios prévios de pancreatite, o uso deve ser cuidadosamente avaliado e monitorado.
* Gestação e Lactação: Embora os dados sejam limitados, o uso da semaglutida durante a gestação e lactação não é recomendado, sendo necessário evitar sua utilização nessas condições até que haja evidências mais robustas quanto à segurança.
**Resumo Prático – Impacto na Prática dos Nefrologistas**
A semaglutida, administrada com uma titulação progressiva (iniciando em 0,25 mg até atingir 2,4 mg semanais), demonstra eficácia no manejo da obesidade e na proteção renal. O manejo adequado dos efeitos colaterais – como náuseas, vômitos e alterações intestinais – por meio de orientações dietéticas e monitoramento contínuo é essencial. Esta abordagem integrada pode reduzir a albuminúria, melhorar os parâmetros metabólicos e retardar a progressão da DRC. Nefrologistas que adotam esse protocolo podem otimizar a qualidade de vida e os desfechos clínicos dos pacientes com comprometimento renal.