As infecções por Staphylococcus aureus são uma das principais causas de bacteremia em pacientes submetidos à hemodiálise. A bacteremia por S. aureus pode levar a complicações graves, como endocardite, osteomielite e abscessos metastáticos, exigindo uma abordagem diagnóstica e terapêutica rígida.
##### Abordagem Clínica
O manejo da bacteremia por S. aureus requer:
História clínica e exame físico detalhados, buscando potenciais focos de infecção e sinais de disseminação hematogênea. Na hemodiálise já sabemos que o cateter é o principal foco de infecção, logo, atenção redobrada as complicações metastáticas como endocardite, espondilodiscites, artrites e abscessos cerebrais!
· Dor de coluna óssea e/ou articular: osteomielite, espondilodiscite e/ou abscesso epidural
· Febre prolongada/sudorese/sopro cardíaco/leões cutâneas: endocardite
· Dor abdominal: infarto renal, infarto esplênico, abscesso de psoas
· Cefaleia: embolo séptico para SNC
Coleta de novas hemoculturas
Exames laboratoriais, incluindo hemoculturas seriadas para documentar a duração da bacteremia é essencial! Após início do tratamento a realização de uma hemocultura com 48-72 horas pós início de tratamento pode ser muito útil para programar tempo de antibiótico e risco de complicações metastáticas
Solicitação de um Ecocardiograma
Ecocardiografia, principalmente transesofágico (TE), para avaliar a presença de endocardite infecciosa. A indicação de realizar um ECO TE após termos em mãos um resultado de ECO transtorácico sem vegetações é controversa. De uma forma em geral indicamos a realização de ECO TE nos seguinte cenários:
· Dependência de hemodiálise
· Bасtеrеmia persistente por S. aureus apesar da terapia antimicrobiana apropriada
· Pouco tempo para a positividade da hemocultura (ou seja, dentro de 24 a 48 horas
· Duração desconhecida da bасtеremia
· Presença de material protético cardíaco
· Presença de anormalidade valvular predisponente
· Ausência de fonte removível evidente de baϲtеrеmia
· Suspeita clínica para endocardite bacteriana
· Uso de drogas intravenosas
A utilização do escore VIRSTA pode auxiliar na tomada de decisão de solicitar um ECO TE. Imagens adicionais, conforme os sintomas (TC de tórax, ressonância magnética para suspeita de osteomielite ou abscessos profundos).
Diagnóstico e Significado Clínico da Bacteremia
A presença de S. aureus em hemocultura deve sempre ser considerada significativa, ou seja, não existe hemocultura com contaminação por S. aureus. O tempo de persistência da bacteremia é um fator prognóstico importante. Estudos mostram que bacteremia prolongada (persistente após 48 horas de antibiótico adequado) está associada ao dobro da taxa de mortalidade.
Tratamento Antimicrobiano
* Infecções por S. aureus sensível à meticilina (MSSA): Preferência por beta-lactâmicos (oxacilina, nafcilina ou cefazolina). Vancomicina é menos eficaz e deve ser evitada se houver alternativa segura.
* Infecções por S. aureus resistente à meticilina (MRSA): Vancomicina é o tratamento padrão, mas daptomicina pode ser considerada em alguns casos.
* Duração da terapia: Hemoculturas devem ser repetidas a cada 48 horas até virem negativas. Em bacteremia sem complicações (ex.: foco identificado e removido, hemoculturas negativas após 48h), recomenda-se pelo menos 14 dias de antibioticoterapia. Em complicações como endocardite, osteomielite ou abscessos, a duração é prolongada (4 a 6 semanas).
Cefazolina e o Efeito Inoculum
A cefazolina é amplamente utilizada para MSSA, mas em algumas cepas, observa-se o efeito inoculum, caracterizado pelo aumento da MIC (índice de inibição mínima) em altas cargas bacterianas (>107 UFC/mL), como é o caso da endocardite. Isso pode comprometer a eficácia da cefazolina em infecções graves, levando a maior mortalidade em comparação com oxacilina/nafcilina. Embora o impacto clínico desse efeito ainda seja debatido, em casos graves como endocardite, a preferência é por oxacilina.
Impacto Prático para o Nefrologista
O reconhecimento rápido e o manejo adequado da bacteremia por S. aureus podem reduzir mortalidade e complicações em pacientes dialíticos. O uso criterioso de antibióticos e a remoção precoce de acessos infectados são fundamentais para melhorar desfechos clínicos.