Os abscessos renais e perinefréticos representam infecções graves do trato urinário que exigem diagnóstico precoce e tratamento adequado. Geralmente se desenvolvem a partir de uma pielonefrite complicada, sendo mais frequentes em pacientes com fatores predisponentes, como nefrolitíase, refluxo vesicoureteral e diabetes mellitus.
A infecção pode ser causada por bactérias gram-negativas enterobacterianas, com Escherichia coli como o principal agente (51,4%), seguida por Staphylococcus aureus (10%) e Klebsiella pneumoniae (8,6%). Além da disseminação ascendente, os abscessos renais podem ocorrer por via hematogênica, principalmente em quadros de bacteremia estafilocócica.
Os abscessos perinefréticos ocorrem quando a infecção ultrapassa a cápsula renal e se espalha para a gordura perinefrética, podendo ser resultado de uma ruptura de abscesso renal ou disseminação hematogênica. A presença de septações nesses abscessos pode dificultar a drenagem e influenciar a resposta ao tratamento clínico.
Quadro Clínico e Diagnóstico
A apresentação clínica pode ser insidiosa, dificultando o diagnóstico precoce. Os sintomas incluem febre persistente, dor lombar, sudorese noturna, fadiga e perda de peso. Em pacientes diabéticos ou imunocomprometidos, o quadro pode evoluir com menor resposta inflamatória, tornando a suspeição clínica ainda mais desafiadora.
Os exames laboratoriais frequentemente revelam leucocitose, elevação da PCR e VHS. A urina pode apresentar piúria e proteinúria, mas esses achados não são obrigatórios, especialmente se o abscesso não se comunicar com o sistema coletor.
Qual exames de imagem dá o diagnóstico?
O diagnóstico definitivo é baseado em exames de imagem. A tomografia computadorizada com contraste é o método de escolha, permitindo a visualização da cavidade purulenta e avaliação da extensão do abscesso. A ultrassonografia também pode ser útil, especialmente em pacientes instáveis ou quando há necessidade de um exame inicial rápido.
Como conduzir o tratamento?
O tratamento envolve antibioticoterapia empírica e, em muitos casos, drenagem percutânea guiada. A escolha inicial do antibiótico deve cobrir gram-negativos e Staphylococcus aureus, com esquemas contendo vancomicina associada a piperacilina-tazobactam, cefepime, meropenem, conforme o perfil clínico do paciente.
Após a identificação microbiológica, a terapia deve ser ajustada conforme a susceptibilidade bacteriana. A duração do tratamento antibiótico varia de 2 a 3 semanas, podendo ser prolongada em casos de abscessos de difícil resolução (principalmente quando não drenados).
Quando indicar drenagem do abscesso?
A intervenção cirúrgica pode ser necessária em casos de abscessos refratários e sepse descontrolada. De uma forma geral, pacientes com abscessos <5 cm podem responder bem à antibioticoterapia isolada, enquanto aqueles com lesões >5 cm geralmente necessitam de drenagem percutânea.
Nos abscessos renais
* Abscessos renais menores que 3 cm → Antibioticoterapia exclusiva
* Abscessos renais entre 3 e 5 cm → Avaliação individualizada, considerar drenagem se houver falha na melhora clínica.
* Abscessos renais maiores que 5 cm → Drenagem percutânea obrigatória + antibiótico
* Abscessos renais associados a litíase obstrutiva → Drenagem percutânea + tratamento urológico
Observação: a drenagem reduz o tempo de hospitalização e melhora a resposta ao tratamento. Ter atenção pois o dreno deve ser mantido até que a secreção seja mínima (<10 mL/dia) e a resolução clínica seja confirmada por exames de imagem.
Se houver obstrução significativa do trato urinário, considerar nefrostomia percutânea além da drenagem do abscesso.
Casos de abscessos estafilocócicos podem ser manejados apenas com antibiótico se não houver grandes coleções purulentas.
Abscessos Perinefréticos
* Abscessos perinefréticos pequenos (<3 cm) sem septações → Antibioticoterapia isolada
* Abscessos perinefréticos >3 cm ou com septações → Drenagem percutânea
* Abscessos septados respondem mal apenas ao tratamento com antibiótico, tornando a drenagem essencial.
* Abscessos perinefréticos associados a infecção urinária grave ou sepse → Drenagem percutânea precoce + antibiótico
* A drenagem deve ser feita logo após a estabilização hemodinâmica. Casos refratários ou com múltiplas septações → Cirurgia aberta
🔬 Resumo prático para nefrologistas: O reconhecimento precoce e a abordagem multidisciplinar dos abscessos renais e perinefréticos são essenciais para reduzir morbimortalidade. A TC com contraste deve ser priorizada para diagnóstico, e o tratamento envolve antibioticoterapia direcionada e drenagem percutânea quando necessário.