As infecções relacionadas ao cateter venoso central (CVC) representam uma das principais complicações em pacientes submetidos à hemodiálise, associadas a maior mortalidade, hospitalizações prolongadas e perda do acesso vascular. A lockterapia com soluções antimicrobianas emerge como uma estratégia fundamental na prevenção e tratamento dessas infecções, reduzindo a colonização bacteriana intraluminal e minimizando o uso sistêmico de antibióticos.
##### Mecanismo de Ação e Indicações
A técnica consiste na infusão e estase de uma solução antibiótica no lúmen do cateter entre as sessões de hemodiálise. O objetivo é erradicar patógenos aderidos ao biofilme intraluminal, uma barreira estrutural que torna as infecções por CVC resistentes a antibióticos sistêmicos. Segundo a Kidney Disease Outcomes Quality Initiative 2019 ([link](https://www.ajkd.org/article/S0272-6386(19)31137-0/fulltext)), a lockterapia é indicada nos seguintes cenários:
1. Tratamento adjuvante da bacteremia associada ao CVC**, quando a remoção do cateter não é imediatamente viável.
2. Prevenção secundária em pacientes com histórico recorrente de infecções** e necessidade prolongada de cateter.
3. Manutenção da permeabilidade do cateter** em casos de trombose parcial associada à colonização bacteriana.
##### Escolha do Agente Antimicrobiano
A escolha do antibiótico deve considerar o espectro microbiológico, a estabilidade da droga em solução e sua compatibilidade com heparina ou citrato. Estudos clínicos sustentam o uso de:
- Vancomicina + Heparina ou Citrato: Indicado para infecções por Staphylococcus aureus meticilino-resistente (MRSA) e *Staphylococcus epidermidis.
- Cefazolina + Heparina: Efetiva contra Staphylococcus sensíveis à meticilina e estreptococos.
- Gentamicina ou Amicacina + Heparina: Utilizadas para Pseudomonas aeruginosa e outros bacilos Gram-negativos.
- Cefepime ou Ceftazidima + Heparina: Alternativa para cobertura ampliada contra Gram-negativos resistentes.
- Meropenem: Reservado para infecções multirresistentes em cenários hospitalares.
##### Protocolos de Administração e Duração
A concentração e o volume da solução de lock devem corresponder ao volume exato de cada lúmen do cateter, geralmente entre 1,5 e 2,5 mL. O tempo de permanência do lock varia conforme a indicação clínica:
- Tratamento da infecção: lockterapia por 10 a 14 dias, associada a antibióticos sistêmicos, com avaliação diária da resposta clínica.
- Prevenção secundária: lockterapia contínua, aplicada após cada sessão de hemodiálise.

##### Evidências e Benefícios Clínicos
Ensaios clínicos randomizados demonstram que a lockterapia reduz significativamente a incidência de infecções por CVC sem aumentar eventos adversos, especialmente quando comparada ao uso isolado de antibióticos sistêmicos. Além disso, evita remoções precoces de cateteres em pacientes com difícil acesso vascular.
Conclusão
A lockterapia é uma ferramenta essencial na prática nefrológica, permitindo o controle eficaz das infecções de cateter sem comprometer a funcionalidade do acesso vascular. A adoção de protocolos baseados em evidências, conforme as diretrizes da KDOQI 2019, é fundamental para otimizar o manejo das infecções associadas ao CVC, minimizando complicações e melhorando o prognóstico dos pacientes dialíticos.