No período imediato ao pós-transplante (menos de 1 semana), a hiperglicemia é uma ocorrência frequente, sobretudo em pacientes criticamente enfermos, sendo reconhecida como um importante fator de risco para o desenvolvimento de diabetes pós-transplante (PTDM). Nesta fase, recomenda-se a monitorização intensiva dos níveis glicêmicos, com tratamento por infusão intravenosa de insulina. Para esses pacientes, os alvos glicêmicos são geralmente estabelecidos entre 140 e 180 mg/dL, conforme orientações da American Diabetes Association, uma vez que um controle glicêmico excessivamente rigoroso (70 a 110 mg/dL) pode aumentar o risco de rejeição do enxerto, disfunção tardia do enxerto e episódios de hipoglicemia.
Em indivíduos sem histórico prévio de diabetes e que apresentam baixa necessidade de insulina, a utilização de um sistema de correção com insulina conforme glicemias antes das refeições e ao deitar pode ser suficiente. Nessa fase, os alvos glicêmicos são ajustados para <140 mg/dL em jejum e <180 mg/dL após refeição.
Em um interessante estudo com 50 transplantados ([link](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3312499/)) foi observado que a introdução precoce de insulina basal – em comparação com o uso de insulinas de ação curta ou agentes orais – pode reduzir significativamente o risco de PTDM, possivelmente por proteger as células beta dos efeitos tóxicos da terapia imunossupressora e do estresse inflamatório.
##### Atenção especial ao período precoce pós-alta (1 a 6 semanas)
Os pacientes com hiperglicemia persistente, especialmente aqueles que continuam necessitando de insulina, devem ser orientados a realizar a automonitorização da glicemia em casa. A recomendação inicial é de uma ou duas medições diárias (geralmente em jejum e antes do jantar), com ajustes na frequência baseados na gravidade da hiperglicemia e na resposta ao tratamento.
Para pacientes com hiperglicemia leve e baixa necessidade de insulina (dose total diária inferior a 20 unidades), a abordagem pode incluir o uso de agentes orais. Dentre as opções, os meglitinidas (como a repaglinida) e os inibidores da DPP-4 (por exemplo, sitagliptina, linagliptina, saxagliptina) são preferidos devido ao menor risco de hipoglicemia e à baixa excreção renal. Caso esses agentes não sejam adequados, sulfonilureias podem ser consideradas, principalmente em indivíduos com função renal comprometida, dado seu perfil de segurança nesse cenário.
A continuidade da terapia com insulina no período pós-alta permite uma titulação mais dinâmica, evitando picos e episódios agudos de hiperglicemia. A escolha entre insulinoterapia basal (como NPH administrado em dose única diária, sincronizado com a administração dos glucocorticoides para compensar o pico glicêmico da tarde) ou alternativas como insulina glargina ou insulina de ação rápida pré-refeição deve ser individualizada. Essa personalização do tratamento leva em conta fatores como a dose de glucocorticoides, a função do enxerto, a presença de infecções e a tipo de alimentação (jejum, enteral ou parenteral).
Um dica importante é a atenção ao pico de glicose exibido pelos pacientes transplantados renais ocorre à tarde, quando iniciado insulina esse período deve estar adequadamente coberto.
Resumo Prático – Impacto na Prática dos Nefrologistas
* A monitorização intensiva e o manejo adequado da hiperglicemia são essenciais para prevenir a PTDM e proteger a função do enxerto a longo prazo.
* A estratégia de infusão intravenosa com alvos de 140–180 mg/dL, seguida de transição para regimes subcutâneos ou agentes orais, otimiza a estabilidade glicêmica.
* A introdução precoce de insulina basal pode reduzir significativamente o risco de desenvolvimento de PTDM, protegendo as células beta.